O Colégio Anglo-Americano assumiu a administração da Escola Politécnica de Foz do Iguaçu em fevereiro de 1976, poucos dias antes da inauguração do prédio público. A transferência ocorreu durante o regime militar, por meio de contrato com a Itaipu Binacional, sem processo licitatório documentado. ## Ordem veio de Curitiba sem aviso prévio O então inspetor de ensino municipal José Kuiava recebeu determinação por telefone do diretor-geral da SEC, professor Ernesto Penauer. "A ordem veio de Curitiba, determinando que eu entregasse as chaves do prédio ao senhor Ney Suassuna", relembra o professor aposentado sobre o episódio que causou constrangimento na administração local. A mudança surpreendeu a administração municipal, que já havia divulgado a inauguração para atender a rede pública. O município enfrentava déficit educacional significativo, com três mil pessoas em idade escolar fora das salas de aula, segundo dados oficiais da época. "Eu já tinha divulgado na rádio e nos jornais a inauguração do colégio para atender alunos da região. De repente tive que suspender tudo", conta Kuiava sobre o momento da transferência do prédio construído com verba pública municipal. ## Contrato estabeleceu mensalidades elevadas para a época O acordo firmado entre Anglo-Americano, Itaipu e Unicon fixou mensalidades entre CR$ 300 e CR$ 500. Para contextualizar os valores, a creche Casa da Criança no Rio de Janeiro cobrava CR$ 70 mensais em 1975. As empreiteiras do consórcio, remuneradas com recursos públicos de Itaipu, garantiram pagamento mínimo de mil vagas escolares no primeiro ano de funcionamento. O colégio registrou mais de dez mil alunos matriculados já no período inicial. Durante o auge das obras da hidrelétrica, a instituição chegou a atender 14 mil estudantes. O crescimento representou expansão de 2.800% comparado às duas unidades originais mantidas pela rede no Rio de Janeiro. ## Proprietário admite uso de contatos políticos Ney Suassuna, dono do Anglo-Americano e ex-assessor do Ministério do Planejamento, confirma que o contrato resultou de reunião solicitada com o diretor-geral de Itaipu. "Cheguei dizendo que era do Ministério do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro", admite sobre o encontro com o general José Costa Cavalcanti. A professora Denise Sbardelotto, da Unioeste, que estudou o projeto pedagógico de Itaipu, avalia o contrato como prejudicial ao poder público. "Itaipu e a Unicom constroem toda a infraestrutura e entregam para o Anglo-Americano administrar por muitos anos. Era uma galinha dos ovos de ouro", analisa a pesquisadora. ## Ausência de documentação sobre licitação A análise dos arquivos consultados não identificou evidências de processo licitatório público para a transferência. "Busquei em todos os lugares, todas as fontes em Foz do Iguaçu, e realmente não encontrei nenhum documento que comprove licitação", afirma Sbardelotto. Apenas em 1988, seis anos após o término das obras de Itaipu, a escola passou a aceitar estudantes externos ao quadro da usina. Até então, o colégio atendia exclusivamente filhos dos funcionários da hidrelétrica. ## Modelo se expandiu para outras estatais O sucesso do contrato em Foz do Iguaçu abriu precedente para acordos similares com outras estatais brasileiras. O Anglo-Americano firmou parcerias com a hidrelétrica de Tucuruí e com a Petrobras nos anos seguintes. A rede chegou a expandir para quase 50 mil alunos distribuídos pelo país. A instituição também criou faculdades em diversos estados, consolidando crescimento baseado em contratos com empresas públicas durante o período militar. O episódio de Foz do Iguaçu ilustra as contradições educacionais da época, quando investimentos públicos subsidiaram a expansão de redes privadas enquanto municípios enfrentavam sobrecarga na educação pública decorrente do crescimento populacional das grandes obras de infraestrutura nacional.