Regime militar transferiu escola pública para colégio privado em Foz do Iguaçu em 1976
Colégio Anglo-Americano assumiu escola municipal em Foz do Iguaçu em 1976, durante regime militar, sem licitação pública documentada.
RedaçãoColaborador
23 de abril de 202617:31
O Colégio Anglo-Americano assumiu a administração da Escola Politécnica de Foz do Iguaçu em fevereiro de 1976, poucos dias antes da inauguração do prédio público. A transferência ocorreu durante o regime militar, por meio de contrato com a Itaipu Binacional, sem processo licitatório documentado.
## Ordem veio de Curitiba sem aviso prévio
O então inspetor de ensino municipal José Kuiava recebeu determinação por telefone do diretor-geral da SEC, professor Ernesto Penauer. "A ordem veio de Curitiba, determinando que eu entregasse as chaves do prédio ao senhor Ney Suassuna", relembra o professor aposentado sobre o episódio que causou constrangimento na administração local.
A mudança surpreendeu a administração municipal, que já havia divulgado a inauguração para atender a rede pública. O município enfrentava déficit educacional significativo, com três mil pessoas em idade escolar fora das salas de aula, segundo dados oficiais da época.
"Eu já tinha divulgado na rádio e nos jornais a inauguração do colégio para atender alunos da região. De repente tive que suspender tudo", conta Kuiava sobre o momento da transferência do prédio construído com verba pública municipal.
## Contrato estabeleceu mensalidades elevadas para a época
O acordo firmado entre Anglo-Americano, Itaipu e Unicon fixou mensalidades entre CR$ 300 e CR$ 500. Para contextualizar os valores, a creche Casa da Criança no Rio de Janeiro cobrava CR$ 70 mensais em 1975.
As empreiteiras do consórcio, remuneradas com recursos públicos de Itaipu, garantiram pagamento mínimo de mil vagas escolares no primeiro ano de funcionamento. O colégio registrou mais de dez mil alunos matriculados já no período inicial.
Durante o auge das obras da hidrelétrica, a instituição chegou a atender 14 mil estudantes. O crescimento representou expansão de 2.800% comparado às duas unidades originais mantidas pela rede no Rio de Janeiro.
## Proprietário admite uso de contatos políticos
Ney Suassuna, dono do Anglo-Americano e ex-assessor do Ministério do Planejamento, confirma que o contrato resultou de reunião solicitada com o diretor-geral de Itaipu. "Cheguei dizendo que era do Ministério do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro", admite sobre o encontro com o general José Costa Cavalcanti.
A professora Denise Sbardelotto, da Unioeste, que estudou o projeto pedagógico de Itaipu, avalia o contrato como prejudicial ao poder público. "Itaipu e a Unicom constroem toda a infraestrutura e entregam para o Anglo-Americano administrar por muitos anos. Era uma galinha dos ovos de ouro", analisa a pesquisadora.
## Ausência de documentação sobre licitação
A análise dos arquivos consultados não identificou evidências de processo licitatório público para a transferência. "Busquei em todos os lugares, todas as fontes em Foz do Iguaçu, e realmente não encontrei nenhum documento que comprove licitação", afirma Sbardelotto.
Apenas em 1988, seis anos após o término das obras de Itaipu, a escola passou a aceitar estudantes externos ao quadro da usina. Até então, o colégio atendia exclusivamente filhos dos funcionários da hidrelétrica.
## Modelo se expandiu para outras estatais
O sucesso do contrato em Foz do Iguaçu abriu precedente para acordos similares com outras estatais brasileiras. O Anglo-Americano firmou parcerias com a hidrelétrica de Tucuruí e com a Petrobras nos anos seguintes.
A rede chegou a expandir para quase 50 mil alunos distribuídos pelo país. A instituição também criou faculdades em diversos estados, consolidando crescimento baseado em contratos com empresas públicas durante o período militar.
O episódio de Foz do Iguaçu ilustra as contradições educacionais da época, quando investimentos públicos subsidiaram a expansão de redes privadas enquanto municípios enfrentavam sobrecarga na educação pública decorrente do crescimento populacional das grandes obras de infraestrutura nacional.
Redação
Colaborador
Colaborador editorial.
Leia Também

Regime militar entrega escola municipal ao setor privado em Foz do Iguaçu
Em 1976, durante regime militar, escola construída com verba municipal foi entregue ao Colégio Anglo-Americano via acordo com Itaipu.
Redação

Regime militar transferiu escola pública para instituição privada em Foz do Iguaçu
Em 1976, prédio construído com recursos municipais em Foz do Iguaçu foi entregue ao Colégio Anglo-Americano sem licitação durante regime militar.
Redação

Conselho do FGTS implementa novas regras do Minha Casa Minha Vida nesta quarta
Conselho do FGTS coloca em vigor nesta quarta novas diretrizes do Minha Casa Minha Vida com critérios atualizados de renda e valores.
Redação