Ditadura militar transferiu escola pública para instituição privada em Foz do Iguaçu
Durante ditadura militar, Escola Politécnica de Foz foi transferida para Colégio Anglo-Americano em 1976, beneficiando ensino privado.
RedaçãoColaborador
23 de abril de 202617:41
A transferência da Escola Politécnica de Foz do Iguaçu para o Colégio Anglo-Americano ocorreu em 1976, poucos dias antes da inauguração do prédio público. O episódio aconteceu durante a ditadura militar e resultou em contratos milionários entre a instituição privada e a Itaipu Binacional.
José Kuiava, professor aposentado que atuava como inspetor municipal de ensino, foi instruído diretamente por Curitiba a fazer a entrega das chaves. A determinação partiu do diretor-geral da Secretaria de Educação via ligação telefônica, ordenando que as chaves fossem repassadas a Ney Suassuna, proprietário do Anglo-Americano.
## Carência educacional na região
O município enfrentava séria escassez de vagas no ensino público naquele período. Dados oficiais do governo estadual, publicados na imprensa regional, indicavam que aproximadamente 3 mil pessoas em idade escolar estavam sem acesso à educação. A transferência do prédio escolar público intensificou esse problema educacional.
Em fevereiro de 1976, Anglo-Americano, Itaipu e Unicon formalizaram acordo contratual. As empreiteiras recebiam recursos públicos e asseguravam pagamento por no mínimo 1.000 vagas escolares. Entretanto, já no primeiro ano letivo, o colégio contabilizou mais de 10 mil estudantes matriculados.
## Expansão acelerada da rede particular
O acordo provocou transformação radical nas dimensões do Anglo-Americano. A instituição mantinha apenas duas unidades no Rio de Janeiro atendendo 500 alunos, mas chegou a 14 mil estudantes no período de maior atividade das obras de Itaipu. O crescimento representou expansão de 2.800% em poucos anos.
Ney Suassuna reconheceu que o contrato foi obtido através de influência política. O proprietário do colégio e ex-assessor do Ministério do Planejamento relatou que se apresentou ao diretor-geral de Itaipu mencionando sua experiência ministerial anterior.
## Ausência de transparência
A professora Denise Sbardelotto, da Unioeste, investigou os arquivos de Itaipu em busca de documentação sobre processo licitatório. "Busquei por todos os lugares e não encontrei nenhum documento que garanta que foi licitação", afirma a pesquisadora que estudou o projeto pedagógico da empresa.
As mensalidades custavam entre CR$ 300 e CR$ 500, valores pagos pela Itaipu. Como parâmetro de comparação, uma creche para crianças carentes no Rio de Janeiro cobrava CR$ 70 no mesmo período. O contrato incluía cláusulas de reajuste anual e proteção contra inadimplência.
## Novos contratos estatais
O êxito em Itaipu proporcionou ao Anglo-Americano acesso a outros contratos públicos. A empresa passou a prestar serviços educacionais na hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, além de atender funcionários da Petrobras no Iraque. Com quase 50 mil alunos, expandiu suas atividades para o ensino superior em diversos estados.
Apenas em 1988, seis anos após o término das obras, o colégio iniciou o atendimento a estudantes externos à Itaipu. Este caso demonstra como recursos públicos financiaram o crescimento de instituições privadas durante a ditadura militar, enquanto a rede pública acumulava déficits estruturais na região.
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