Tem uma estatística que o Palácio do Buriti prefere não colocar em cartaz: três cidades do Distrito Federal — Ceilândia, Samambaia e Planaltina — concentram 70% de todos os homicídios registrados no DF em 2025. Setenta por cento. Num território com 33 regiões administrativas, a violência letal é quase um monopólio da periferia.

Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do DF. Em 2025, o DF registrou 487 homicídios dolosos. Desses, 341 aconteceram em Ceilândia, Samambaia e Planaltina. Ceilândia sozinha responde por 31% do total — 151 mortes numa cidade de 500 mil habitantes.

Os números que incomodam

A taxa de homicídios de Ceilândia em 2025 foi de 30,2 por 100 mil habitantes. A média nacional é de 22,8. A média do Plano Piloto foi de 3,1. Dez vezes menor. Dez vezes.

Pois é. A cidade que se apresenta ao mundo como capital moderna e planejada tem, a 30 quilômetros do Congresso Nacional, taxas de violência que envergonhariam qualquer governo estadual no Brasil.

Por que a periferia concentra a violência

A resposta fácil é: tráfico de drogas. E não está errada — mas está incompleta. Ausência de equipamentos culturais e esportivos para jovens. Mercado de trabalho formal restrito. Transporte público que consome duas horas por dia. Escola com professor, mas sem perspectiva de emprego do outro lado.

"A gente trata sintoma, não causa", me disse um delegado da PCDF que pediu para não ser identificado. "O jovem de 17 anos que entra para o tráfico em Ceilândia Norte não fez essa escolha porque gosta de violência. Fez porque era a única estrutura que apareceu na vida dele com promessa de renda imediata."

Polícia tem — o problema é outra coisa

O DF tem uma das maiores relações policial-habitante do Brasil. A PMDF conta com 15.200 efetivos. Mas 38% do efetivo operacional está alocado no Plano Piloto. Ceilândia, com seis vezes mais homicídios per capita, tem 19% do efetivo.

Isso não é acidente. É escolha. Uma escolha política que reflete onde está o eleitor que pressiona e onde mora quem tem acesso ao governador.

O que muda — e quando

O que os moradores de Ceilândia, Samambaia e Planaltina querem não é complicado. Querem poder sair de casa sem medo, ver o filho voltar da escola, envelhecer no bairro onde construíram a vida. Isso não é pauta de esquerda nem de direita. É pauta de quem paga imposto e merece Estado funcionando.

Por enquanto, o Estado que chega a essas três cidades com mais frequência ainda é o Estado em viatura, depois que o corpo já está no chão.