Todo ano, com uma regularidade quase sazonal, chegam as greves. Professores da rede pública, policiais militares, médicos do sistema de saúde distrital. As paralisações do funcionalismo do Distrito Federal se tornaram parte do calendário da cidade — e cada negociação começa do mesmo ponto: servidores pedindo reajustes sobre salários que já figuram entre os mais altos do serviço público brasileiro.

O salário médio do servidor efetivo do GDF é de R$ 11.240 mensais, segundo o Portal da Transparência do Distrito Federal. Para efeito de comparação, a média nacional do funcionalismo estadual é de R$ 6.780. O DF paga, em média, 65% a mais do que outros estados.

O FCDF como motor de uma anomalia fiscal

O Fundo Constitucional do Distrito Federal foi criado pela Constituição de 1988. O resultado prático é que a União transfere anualmente cerca de R$ 22 bilhões ao GDF. Esses recursos financiam 148.000 servidores ativos, mais 112.000 aposentados e pensionistas. A folha de pagamento total do GDF consome 72% da receita corrente líquida distrital.

"É uma armadilha constitucional", define o economista Marcus Bezerra, do IPEA. "O DF tem uma capacidade de gasto maior do que qualquer estado comparável em população, e isso criou uma cultura de privilégios que é muito difícil de desmantelar porque está protegida juridicamente e politicamente."

A greve que volta todo ano

Em 2025, a rede pública de educação do DF foi paralisada por 47 dias. O acordo final previu 28% em dois anos — um dos maiores reajustes concedidos a professores estaduais em todo o Brasil no período.

A greve de 2025 teve um custo econômico direto: 340.000 alunos ficaram sem aulas por quase dois meses, com impacto estimado de 15% no desempenho médio nas avaliações do SAEB.

A reforma que nunca vem

Todas as gestões do GDF desde 2010 anunciaram alguma versão de reforma administrativa. Todas foram parcialmente abandonadas. A versão atual propõe reduzir de 37 para 28 o número de secretarias e eliminar 4.200 cargos comissionados.

"Reforma administrativa no DF é anunciada no início de cada governo e esquecida no meio", diz Renata Alves, presidenta do Sindafisco-DF. "E não é só resistência nossa — é que o governo não tem coragem política para tocar em estruturas que ele mesmo usa para distribuir cargos."

O custo político da inércia

Com 72% da receita consumida pela folha de pessoal, o GDF tem margem limitada para investimento. A matemática é brutal: cada 1% de reajuste concedido ao funcionalismo custa R$ 280 milhões ao erário distrital por ano.