O maior orçamento da história do DF

R$ 52 bilhões. É o valor da Lei Orçamentária Anual do Distrito Federal para 2026, aprovada pela CLDF em dezembro e sancionada pelo governador sem vetos significativos. Na prática, é o maior orçamento da história da capital federal — e também um dos documentos mais debatidos entre economistas, servidores públicos e organizações da sociedade civil brasiliense.

O número impressiona. Mas número grande não significa dinheiro bem gasto. E é exatamente aí que começa o problema.

Para onde vai o dinheiro: a divisão oficial

Segundo a Secretaria de Fazenda do DF, a distribuição prevista para 2026 segue a estrutura de anos anteriores. Saúde recebe a maior fatia: aproximadamente 24% do total, algo em torno de R$ 12,5 bilhões. Em seguida vêm educação (19%), segurança pública (14%), infraestrutura e obras (11%) e administração geral (10%).

"O orçamento do GDF tem um problema estrutural: ele é aprovado com valores que são, em parte, fictícios", afirma o economista Paulo Henrique Duarte, especialista em finanças públicas. "Há linhas orçamentárias que nunca foram executadas acima de 40%, mas voltam todo ano com o mesmo valor. Isso distorce a análise e dificulta o controle social."

Saúde: o setor que recebe mais e ainda falta

Doze bilhões para saúde parece muito — e é. Mas quem frequenta as UBSs de Ceilândia, aguarda consulta especializada no Hospital Regional do Gama ou espera por um leito de UTI no Paranoá sabe que o valor no papel não se traduz em atendimento na ponta.

Servidores da área relatam, sob anonimato, que equipamentos básicos passam meses sem manutenção não por falta de verba — mas por entraves burocráticos que impedem a execução do gasto. O dinheiro existe. A capacidade de gastá-lo bem, nem sempre.

Infraestrutura: obras que viram legado e obras que viram escândalo

Uma pesquisa do Instituto de Controle do DF identificou que aproximadamente 34% das obras contratadas pelo GDF nos últimos cinco anos apresentaram atrasos superiores a 24 meses. Em 12% dos casos, as obras foram paralisadas por mais de seis meses sem justificativa formal.

"Obra inacabada é dinheiro jogado fora", diz a engenheira civil Mariana Figueiredo. "Você já pagou a mobilização, o projeto, o terreno preparado — e aí para. O custo de retomada é sempre maior. E quem paga a conta é o contribuinte."

A dívida que cresce em silêncio

O Distrito Federal tem uma das maiores dívidas per capita entre as unidades da federação brasileira. O saldo devedor consolidado superou R$ 14 bilhões em 2025. O serviço dessa dívida consome cerca de R$ 1,8 bilhão anuais — dinheiro que não vai para hospital, escola ou segurança.

O que os brasilienses deveriam cobrar

O Portal da Transparência do GDF disponibiliza, em tempo real, os dados de execução orçamentária. Qualquer cidadão pode acessar e verificar quanto foi gasto em cada secretaria. Em 2026, com eleições chegando, vai importar mais do que nunca saber distinguir o que está no papel do que vai, de fato, acontecer.