Pois é. Sete anos de Ibaneis Rocha no Palácio do Buriti e a cidade ainda não sabe bem o que pensar dele. Tem quem jure que foi o melhor governador do DF em décadas. Tem quem diga — com a mesma convicção — que ele entregou o DF de mão beijada para interesses que a população nem conhece direito. A verdade, como quase sempre, mora num lugar incômodo entre os dois lados.
Vou direto ao ponto: a gestão Ibaneis tem entregas reais. Não dá para negar. O metrô chegou em Águas Claras — R$ 1,4 bilhão investidos, dois anos de atraso, mas chegou. São 180 mil passageiros por dia útil numa linha que estava parada há décadas. O Corredor Oeste de BRT conectou Taguatinga a Ceilândia com faixa exclusiva. O Hospital Regional do Gama, que apodreceu abandonado por seis anos, voltou a ter obra. Isso é concreto. É obra. É tijolo.
Só que governo não é só obra.
O que fica de bom — e olha que tem coisa
A extensão da Linha 1 do metrô até Águas Claras é, provavelmente, o maior legado físico da gestão. A obra estava parada, enrolada em disputas de contrato e falta de vontade política, quando Ibaneis assumiu em 2019. Ele tocou. Atrasou — o prazo original era 2021 —, mas ficou pronto em 2023 e hoje transporta mais gente do que os técnicos do DFTRANS esperavam.
Na saúde, o Hospital da Criança de Brasília passou por ampliação e virou referência nacional em oncologia pediátrica — um detalhe que quase ninguém sabe porque o governo não soube vender. O Hospital Regional do Gama deve abrir com 240 leitos no segundo semestre de 2025.
Janeiro de 2023 — o momento que mudou tudo
Aí vem o 8 de janeiro. E muda tudo.
Quando os manifestantes invadiram o Palácio do Planalto, o STF e o Congresso Nacional — a dois quilômetros do Palácio do Buriti —, a pergunta que ficou no ar foi simples e devastadora: cadê a PM do DF? A Polícia Militar distrital, que responde ao governador, assistiu à confusão sem agir com a força que a situação exigia. O STF concluiu que houve omissão e afastou Ibaneis por 90 dias.
Noventa dias fora do cargo. Vice Paco Britto assumiu. E aí começou um capítulo que o Palácio do Buriti prefere que todo mundo esqueça: Britto começou a articular politicamente por conta própria, construiu alianças paralelas na CLDF e, quando Ibaneis voltou, o terreno político estava diferente. Menos leal. Mais fragmentado.
Opinião minha: aquele afastamento revelou uma fragilidade de caráter institucional que vai além do episódio do 8 de janeiro. Um governador que não consegue — ou não quer — controlar suas próprias forças de segurança num momento de crise tem um problema que não se resolve com obra de metrô.
Os 48% e o que esse número esconde
A aprovação hoje está em 48%. É o que mostram Datafolha e Instituto Pleno em pesquisas de fevereiro de 2026. Número razoável para quem foi afastado pelo STF há três anos. Mas o que a média esconde é mais interessante do que ela.
No Plano Piloto, a aprovação chega a 54%. Nas regiões administrativas periféricas — Ceilândia, Samambaia, Planaltina, Recanto das Emas —, a aprovação cai para 39%. São exatamente as cidades que mais precisam do Estado e que menos recebem, proporcionalmente, do orçamento distrital. Não é coincidência.
Segurança: o calcanhar que não cicatriza
O DF tem uma das maiores relações policial-habitante do Brasil. Muita polícia. Orçamento robusto. E mesmo assim — crimes violentos cresceram 14% entre 2022 e 2025. Homicídios nas cidades-satélites subiram 19% no mesmo período.
Isso é, para dizer o mínimo, constrangedor.
A reforma que está na gaveta
Desde 2024, o GDF anuncia uma reforma administrativa que vai reduzir o número de secretarias de 37 para 28. A proposta está na CLDF desde março de 2024. Já foram 23 audiências públicas, 8 emendas substitutivas e — nenhuma votação.
Não é novidade. Todo governador do DF anuncia reforma administrativa. Nenhum entrega de fato. O funcionalismo é grande demais, organizado demais e politicamente útil demais para ser mexido de verdade.
2026 — o último ato
A ex-secretária de Educação Fátima Souza, lançada pelo PT, concentra 62% das intenções de voto nas RAs com renda per capita abaixo de R$ 1.500. É exatamente onde a aprovação de Ibaneis está mais baixa. Coincidência? Nem de longe.
Uma cientista política da UnB resumiu assim: "Ibaneis tem obras para mostrar. Mas governo não é só isso. É saúde que funciona, escola com professor, segurança na rua. E aí o placar é mais apertado do que ele gostaria."
Pois é. O último ano vai definir se o legado de Ibaneis Rocha será lembrado pelas obras que entregou — ou pelas que prometeu e não cumpriu. Brasília tem memória curta para muita coisa. Mas para essa conta, ainda não fechou.

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