Quarenta e sete dias. Foi o tempo que os alunos da rede pública do Distrito Federal ficaram sem aula em 2025, durante a greve dos professores. Para o aluno do Lago Sul que tem reforço particular, o prejuízo é recuperável. Para o aluno da Ceilândia que depende exclusivamente da escola pública, aqueles 47 dias simplesmente sumiram do ano letivo.
O DF tem o maior gasto por aluno da educação básica do Brasil — R$ 14.200 anuais, contra média nacional de R$ 8.900, segundo dados do FNDE referentes a 2025. E mesmo assim, a rede convive com greve todo ano, com salas sem professor e com desempenho escolar que cai exatamente nas regiões onde a escola pública é a única opção.
O déficit que não fecha
A Secretaria de Educação do DF tem, hoje, 46.200 professores na ativa. A rede precisaria de 51.800 para cobrir todas as turmas com titulares efetivos. O gap de 5.600 professores é coberto por contratos temporários que frequentemente abandonam os cargos no meio do ano letivo.
Em Ceilândia, Samambaia e Planaltina, a proporção de professores substitutos em 2025 foi de 23%, 21% e 28%, respectivamente. No Plano Piloto, essa proporção cai para 9%.
"O professor efetivo tem direito de escolher onde quer trabalhar pela ordem de classificação do concurso. Os primeiros colocados pegam as escolas do Plano Piloto. Os últimos ficam com o que sobrou em Planaltina", explica uma diretora de escola de Samambaia.
A greve que sempre volta
Desde 2018, o DF teve greve de professores em seis dos oito anos. O acordo de 2025 previu 28% de reajuste em dois anos — um dos maiores concedidos a professores estaduais no Brasil. Custará R$ 7,8 bilhões ao orçamento distrital até o fim do plano plurianual.
O ciclo de greves anuais no DF é um sintoma de uma relação estruturalmente disfuncional entre o governo distrital e seu funcionalismo. Não é só dinheiro — é também gestão, condição de trabalho e reconhecimento.
Celina Leão e a pauta da valorização docente
A deputada federal Celina Leão, que presidiu a Comissão de Educação da Câmara Federal e é uma das pré-candidatas ao governo do DF, tem defendido publicamente a criação de um adicional de difícil provimento para professores que aceitam trabalhar em escolas das regiões periféricas — modelo já testado em outros estados para reduzir o desequilíbrio na distribuição de efetivos.
O que o aluno da periferia precisa
"Quando tem greve, meu filho fica em casa sozinho. Não tem avó aqui, não tem vizinho de confiança. Ele fica na internet o dia todo. Isso não é educação — é abandono com nome bonito", diz Josiane Silva, 38 anos, mãe de dois filhos em escola pública de Samambaia.
Enquanto a greve durar 47 dias e o professor substituto trocar de escola em março, o aluno de Samambaia vai continuar pagando uma conta que não é dele.