Quem nunca morou em Brasília não entende. Você chega, olha as avenidas largas, o céu azul de dar inveja, a cidade organizada — e pensa: que lugar agradável. Aí vem o boleto do aluguel. Aí vem o supermercado. Aí vem a conta de água, de luz, do plano de saúde, da escola da criança. E aí você entende o que os brasilienses que moram aqui há anos já sabem de cor: Brasília é bonita demais para o que cobra.

O IBGE não deixa mentir. No Índice de Custo de Vida Urbano do primeiro trimestre de 2026, Brasília aparece na terceira posição entre as cidades mais caras do Brasil — atrás de São Paulo e Florianópolis, na frente do Rio de Janeiro. Não é percepção, não é reclamação de grupo de WhatsApp de condomínio. É dado. E quem paga a conta dessa estatística, na prática, é quem não tem contracheque de servidor no final do mês.

O aluguel que faz as contas não fecharem

Vou te contar uma coisa que assusta. Um apartamento de dois quartos na Asa Sul está custando em média R$ 4.200 por mês de aluguel. Quatro mil e duzentos reais. Mais do que apartamentos equivalentes em bairros nobres de São Paulo. Mais do que o salário inteiro de boa parte dos trabalhadores do setor privado do DF.

E não é só a Asa Sul. Águas Claras viu o aluguel de dois quartos sair de R$ 1.800 para R$ 2.650 entre 2022 e 2025. Alta de 47%. A inflação acumulada no mesmo período foi de 18,7%. Não é reajuste. É outra coisa.

"Brasília tem uma característica que pouquíssimas cidades brasileiras têm: a demanda imobiliária é permanentemente pressionada por uma classe de renda alta que não sente o preço", explica Paulo Drummond, economista da FGV. "Funcionários públicos federais, consultores, diplomatas — eles chegam, precisam de moradia e pagam o que o mercado pede. O problema é que esse parâmetro puxa o custo para cima de todo mundo."

O supermercado que parece não saber onde fica

Aí você pensa: tudo bem, aluguel é caro em toda cidade grande. Mas o supermercado... pois é.

O Procon-DF fez uma pesquisa em fevereiro de 2026 com 12 supermercados do DF. Comparou com cesta básica equivalente em Goiânia. Resultado: os preços em Brasília estão 14% mais caros em média. Em itens como óleo de soja, feijão e frango congelado, a diferença chegou a 22%.

"O consumidor de alta renda não pesquisa preço de feijão", diz Ana Paula Figueiredo, economista do Procon-DF. "Os supermercados sabem disso e operam com margens que em outras cidades seriam insustentáveis."

Serviços: onde a conta realmente explode

Um encanador em Brasília cobra, em média, R$ 180 por hora. Uma diarista na Asa Sul dificilmente aceita menos de R$ 280 por diária. Uma consulta com clínico geral em plano popular custa R$ 45 de copagamento — R$ 12 a mais do que a média nacional.

O motivo é sempre o mesmo: a mão de obra no DF é cara porque concorre com o serviço público. O encanador autônomo poderia estar trabalhando como terceirizado numa repartição federal. Para abrir mão disso, ele cobra mais.

Dois andares, uma cidade

O trabalhador do setor privado que ganha R$ 3.500 por mês paga R$ 1.400 de aluguel em Samambaia, gasta R$ 600 em supermercado, desembolsa R$ 280 em transporte. Sobram menos de R$ 1.200 para tudo o mais. E ele mora a 40 quilômetros do trabalho.

"O DF criou uma economia de dois andares", disse Paulo Drummond. "No andar de cima, renda garantida, plano de saúde, estabilidade. No andar de baixo, informalidade, custo alto e nenhuma das proteções. E a escada entre os dois andares está cada vez mais quebrada."

O que ninguém quer falar

Os 40% da população do DF que vivem com renda per capita abaixo de R$ 1.500 — concentrados em Ceilândia, Recanto das Emas, Planaltina e Itapoã — não experimentam Brasília como cidade cara de forma abstrata. Experimentam como escolha impossível: aluguel ou carne essa semana.

Enquanto isso não muda — e levará anos para mudar, se é que vai —, Brasília continuará sendo o que já é: uma das cidades mais caras do Brasil, muito bonita por fora, com uma conta que só quem tem estabilidade consegue pagar sem perder o sono. Para os outros... pois é. Para os outros, é o que é.