A capital que deveria dar o exemplo

Brasília foi planejada para ser o símbolo de um Brasil moderno, racional e eficiente. A capital federal, inaugurada em 1960 como um projeto de civilização, carregava a promessa implícita de que aqui as coisas seriam diferentes. O Estado teria mais controle. A gestão pública seria mais transparente. A corrupção, endemia das velhas capitais, ficaria para trás.

Não ficou.

O Distrito Federal acumula, em trinta anos de autonomia política, um catálogo de escândalos que envergonharia qualquer estado da federação. Governadores cassados, secretários presos, deputados distritais investigados por esquemas que iam de desvios em contratos de limpeza urbana a fraudes em licitações hospitalares.

Os escândalos que ficaram na memória

"O problema estrutural do controle no DF é a lentidão do sistema de responsabilização", afirma o procurador Marco Aurélio Vieira. "Quando um crime é investigado, processado e eventualmente julgado, já passaram dez, quinze anos. O agente público que desviou dinheiro está aposentado, o patrimônio foi diluído, a memória do ato se perdeu. A impunidade não é sempre intencional — às vezes é só lenta."

O papel do TCE-DF: avanços reais e limitações concretas

O Tribunal de Contas do Distrito Federal realizou, nos últimos anos, auditorias que resultaram em bloqueio de contratos superfaturados e responsabilização de servidores. Mas a capacidade técnica de auditoria é menor do que a demanda.

O Portal da Transparência: ferramenta que poucos usam

Pesquisa realizada pelo Observatório Social do DF em 2024 mostrou que menos de 3% dos cidadãos brasilienses já acessaram o portal para consultar informações sobre gastos do governo.

"A transparência formal não é suficiente. Publicar dado em portal sem garantir que as pessoas consigam ler e entender esse dado é, na prática, uma transparência decorativa", avalia a cientista política Cecília Ramos, pesquisadora do Instituto de Governo Aberto da UnB.

Perspectivas para o DF em 2026

Trinta anos de escândalos ensinaram uma lição difícil ao Distrito Federal: corrupção não é problema de um partido, de uma gestão ou de uma pessoa. É um problema de sistema. E sistemas só mudam quando as pessoas que os habitam — e os que os fiscalizam de fora — decidem, de verdade, que não aceitam mais o mesmo.

Essa decisão ainda está por ser tomada.