O tabuleiro político que ninguém esperava
Faltam pouco mais de dezoito meses para as eleições de 2026, e a Câmara Legislativa do Distrito Federal já não é o mesmo lugar. Bastidores que costumavam funcionar em silêncio agora fervilham de conversas nos corredores do prédio na Praça Municipal, com deputados distritais recalculando alianças, mudando de partido e tentando antecipar quem vai — ou quem não vai — se sentar na cadeira do Palácio do Buriti.
É ano eleitoral. Ou quase. E no DF, isso muda tudo.
A CLDF tem 24 deputados distritais. Parece pouco para tanto barulho, mas é exatamente nessa câmara enxuta que se decide o orçamento de R$ 52 bilhões do GDF, se aprovam — ou não — os projetos do governador, e se constroem as bases para candidaturas ao governo distrital. Quem domina a Casa, na prática, tem poder de veto sobre o Executivo. E todo mundo sabe disso.
A dança das legendas
Desde janeiro, pelo menos seis deputados distritais já trocaram de partido ou sinalizaram intenção de mudar. O movimento não é exclusividade do DF — acontece em todo o Brasil em período pré-eleitoral —, mas aqui ele tem sabor próprio. O Distrito Federal é a única unidade da federação sem municípios, o que concentra toda a disputa política em um único pleito. Governador, deputados distritais e senadores: tudo no mesmo dia, tudo se influenciando.
"No DF, você não tem a divisão entre política municipal e estadual que existe nos outros estados. Isso cria uma disputa muito mais intensa por espaço no palanque do governador", explica o cientista político Rodrigo Tavares, professor da Universidade de Brasília. "Todo deputado distrital quer ser vice, quer ser secretário, quer ter o governador fazendo campanha com ele. Isso gera uma pressão enorme para alinhar com quem parecer mais forte."
Quem manda na Mesa Diretora manda no jogo
Um dos principais objetos de disputa é o controle da Mesa Diretora da CLDF. Presidir a Câmara Legislativa não é apenas uma questão de prestígio — é poder real. O presidente da Casa define a pauta das votações, controla o ritmo de aprovação de projetos e, em períodos de crise, pode frear — ou acelerar — medidas que afetam diretamente o governo.
"A lógica é sempre a mesma: quem controla a pauta controla o poder", resume a advogada constitucionalista Fernanda Lopes. "E no DF isso é amplificado porque você tem uma câmara pequena, com recursos significativos e uma eleição que concentra tudo em um único momento."
O papel da oposição — e suas contradições
A oposição na CLDF enfrenta um problema crônico: fragmentação. Com os assentos distribuídos entre múltiplas legendas e sem uma liderança única capaz de articular um bloco coeso, os partidos de oposição frequentemente se dividem nas votações mais importantes.
O GDF conta com máquina administrativa robusta, capacidade de distribuir cargos e contratos, e influência histórica sobre grande parte do eleitorado funcional que vive no Plano Piloto e em cidades-satélite como Taguatinga e Ceilândia.
O que os brasilienses estão assistindo
Para além dos jogos de bastidor, a movimentação política tem consequência direta na vida de quem mora no DF. Projetos de lei relevantes — sobre transporte público, habitação em regiões administrativas periféricas, regulação de serviços de saúde — ficam meses parados na CLDF enquanto os parlamentares se posicionam para o jogo eleitoral.
O que vai definir 2026 no Distrito Federal não será apenas quem faz a aliança certa — será quem conseguir convencer os brasilienses de que desta vez é diferente. Até agora, ninguém parece ter encontrado essa resposta.