Ceilândia tem 500.000 habitantes — mais do que Florianópolis, Maceió ou Cuiabá. É a maior cidade do Distrito Federal em população e, ao mesmo tempo, a que recebe menos investimento per capita do GDF.

O Plano Piloto concentra 13% da população do DF. Mas absorve 38% dos investimentos em infraestrutura urbana, segundo levantamento do IPEDF referente ao período 2019-2024. As três maiores RAs — Ceilândia, Samambaia e Planaltina — somam 31% da população e receberam 17% dos investimentos no mesmo período.

A herança do planejamento colonial

Ceilândia nasceu em 1971 de uma operação chamada Campanha de Erradicação de Invasões. O governo militar transferiu à força 80.000 pessoas que moravam em favelas próximas ao Plano Piloto para um terreno sem infraestrutura a 26 quilômetros do centro.

"O DF é um experimento urbanístico único no mundo: uma capital construída para ser vista de fora, não para ser vivida por dentro", explica a urbanista Lúcia Petersen, professora da UnB.

O déficit que os números revelam

Em saneamento básico, 94% dos domicílios do Plano Piloto têm acesso a coleta de esgoto tratado. Em Planaltina, esse índice é de 61%. O DF tem 180.000 domicílios sem coleta de esgoto — quase todos concentrados fora do eixo central.

O tempo médio de espera para uma consulta especializada no sistema público é de 34 dias no Plano Piloto; em Ceilândia, chega a 94 dias; em Planaltina, a 112 dias.

O peso eleitoral que ainda não se converteu em poder

Ceilândia, Samambaia e Planaltina concentram o maior eleitorado do DF. Nas eleições de 2022, as três RAs somaram 890.000 eleitores — 35% do total distrital.

"A periferia do DF vota, mas não barganha", observa o cientista político André Teixeira, da UniCEUB. "As lideranças locais são rapidamente cooptadas por partidos que oferecem cargos, não mudanças estruturais."

O que mudaria de verdade

Especialistas apontam medidas estruturais que poderiam reduzir as disparidades: criação de um fundo específico de equidade territorial, descentralização dos serviços de saúde especializados e revisão do modelo de transporte para levar corredores de alta capacidade para onde a densidade cresce.

Nenhuma dessas propostas está no plano de governo atual. E enquanto não houver liderança disposta a gastar capital político — tirando recursos do centro para dar à periferia —, Ceilândia continuará sendo a maior cidade do DF que nenhum governador quer realmente governar.