Sessenta e seis anos. É muito tempo para uma cidade. É pouco para uma capital. Brasília entrou no mundo em 21 de abril de 1960 num ato de vontade que tinha tanto de grandioso quanto de autoritário — uma cidade construída no meio do cerrado por decreto presidencial, inaugurada antes de estar pronta.

Em 2026, olhar para o que Brasília se tornou é um exercício que exige honestidade. A cidade tem conquistas reais e impressionantes. Tem também contradições que 66 anos não apagaram.

O que foi construído — e é real

Brasília tem o maior PIB per capita entre as unidades federativas do Brasil — R$ 89.400 anuais, segundo o IBGE 2025, mais do que o dobro da média nacional. Tem o maior índice de escolaridade do país: 14,2% da população adulta com título de mestre ou doutor.

A infraestrutura do eixo central é de primeira linha. O tombamento pela UNESCO em 1987 foi merecido. A cidade é, do ponto de vista urbanístico e arquitetônico, uma obra singular.

O que não foi construído — e precisava ter sido

Pois é. Aí vem a parte que o discurso de aniversário prefere pular rapidinho.

Brasília foi planejada para 500 mil habitantes. Hoje tem 3,1 milhões. Os 2,6 milhões que chegaram depois foram acomodados em cidades-satélites criadas às pressas, sem infraestrutura, longe do centro.

Ceilândia foi fundada em 1971 removendo à força 80 mil pessoas de favelas próximas ao Plano Piloto. Hoje tem 500 mil habitantes, taxa de homicídios dez vezes maior que o Plano Piloto e acesso a serviços públicos de qualidade dez vezes menor.

A cidade que tem dois andares

No andar de cima, renda alta, estabilidade funcional, serviços de qualidade. No andar de baixo — que é onde mora a maioria —, periferia distante, transporte precário, escola com professor substituto e hospital com fila de 90 dias.

O que 66 anos não entregaram é a escada entre os dois andares. O elevador social que uma cidade rica deveria ser capaz de oferecer.

O que os próximos anos exigem

Uma cidade que tem o maior PIB per capita do Brasil e ainda tem 180 mil domicílios sem esgoto tratado não está entregando seu potencial. Brasília tem 66 anos e muito a comemorar. Tem também muito a explicar — e, principalmente, muito a fazer. O cerrado não espera. A periferia, há décadas, também não.