Milhares participam da tradicional alvorada de São Jorge no centro do Rio
Tradicional alvorada de São Jorge mobiliza devotos na Avenida Presidente Vargas. Celebração do padroeiro do Rio mistura tradições católicas e afro.
RedaçãoColaborador
04 de maio de 202619:17
Devotos em grande número se reuniram na madrugada desta quarta-feira (23) na Avenida Presidente Vargas, região central do Rio de Janeiro, para participar da tradicional alvorada de São Jorge. O santo, considerado padroeiro do Rio desde 2019, é celebrado em feriado estadual criado em 2008.
A concentração começou às 5h da manhã próximo ao Campo de Santana. Os participantes se posicionaram diante do palco instalado em frente à Biblioteca Parque Estadual. A programação incluiu uma missa solene conduzida pelo padre Wagner Toledo.
## Manifestação religiosa reúne diferentes tradições
Durante a cerimônia, o padre Wagner Toledo se dirigiu aos presentes destacando as dificuldades enfrentadas pelos fiéis. "Cada um aqui tem a sua batalha. Cada coração aqui conhece um peso. Cada vida aqui já enfrentou ou está enfrentando o dragão", disse o religioso.
A artista Azula Cristina Pereira enfatizou o aspecto multicultural da celebração de São Jorge. Ela sublinhou os vínculos com tradições afro-brasileiras. "Venho todo ano para a celebração de São Jorge. Para mim, que faço parte das religiosidades africanas, a gente cultua São Jorge junto com Ogum", declarou.
Nas práticas religiosas de origem africana, como umbanda e candomblé, é comum a associação entre São Jorge e Ogum. Este orixá guerreiro está vinculado ao ferro e aos combates. Em determinadas localidades, pode também ser conectado a Oxóssi.
## Devoção pessoal e compromissos espirituais
A educadora e produtora cultural Gaby Makena explicou seu ritual de preparação para a festividade. "Começa no dia anterior, com oração, organização, roupa vermelha. Chegar cedo, acompanhar a missa e sair com esperança", contou.
Anielle Franco, ex-ministra da Igualdade Racial, esteve presente na alvorada de São Jorge. Ela demonstrou emoção ao mencionar sua irmã Marielle Franco. "Vim com a Marielle em 2016, no ano em que ela foi eleita vereadora. Desde então, venho pagar a promessa que fizemos naquele dia", recordou.
"É como se eu estivesse hoje abraçando ela de novo. São Jorge é um momento de emoção, de família, de devoção e de resistência", complementou a ex-ministra.
## Celebrações em múltiplos pontos da cidade
Além da região central, a devoção a São Jorge também mobilizou fiéis em Quintino, bairro da zona norte. Esta localidade representa outro ponto de referência tradicional para a alvorada.
A organização programou missas de hora em hora durante todo o dia. O movimento constante garante a presença contínua de devotos na área. Muitos frequentam o espaço para orar, cumprir promessas e integrar as cerimônias.
Anielle Franco também abordou a necessidade de combater a discriminação religiosa. "A gente tem lutado muito para que a intolerância e o racismo religioso acabem", afirmou.
## Raízes históricas do sincretismo religioso
O sincretismo observado na veneração a São Jorge tem raízes no período escravocrata. Africanos escravizados começaram a relacionar seus orixás com santos católicos para manter suas tradições espirituais. Comumente retratado como cavaleiro que vence um dragão, São Jorge representa proteção, bravura e superação de desafios.
A festividade evidencia como distintas correntes religiosas se encontram em expressões culturais que perpassam gerações. Estas práticas resistem ao tempo e preservam a pluralidade espiritual característica do Brasil, demonstrando a capacidade de diferentes tradições coexistirem em harmonia dentro do tecido social urbano contemporâneo.
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